Setting é o nome dado ao momento da sessão em Psicoterapia e significa mais do que os 50min que paciente e psicólogo passam juntos, pois considera todos os fenômenos inconscientes que aparecem ali, entre eles a transferência e a contratransferência.
Um contexto intenso no qual há a possibilidade de se estabelecer vínculos afetivos profundos de ambas as partes, o que é benéfico e esperado, mas que também permite a manifestação fantasias narcísicas e onipotentes, em função da impetuosidade emocional envolvida.
Ryad Simon, professor titular do departamento de Psicologia Clinica do Instituto de Psicologia da USP, fala um pouco a respeito em seu livro: "Psicoterapia Psicanalítica: Concepção Original", ao tratar de uma questão comum na clínica que é o afastamento esporádico entre o paciente e o psicólogo, neste caso, especificamente, ele falava de uma paciente que iria ter bebê e estava com dificuldade em lidar com esta separação e, por isso, lhe pedia que que ligasse para ela e fosse visitá-la no hospital.
"Em minha opinião, o psicoterapeuta deve agir dentro dos limites do enquadre para não confirmar ao paciente que realmente é o unico que pode ajudá-lo. É de fato o unico que pode ajudá-lo psicanaliticamente; mas, nem só de psicanálise vive o homem. Há outras formas de ajudar que podem ser prestadas por outros profissionais [...], parentes, e outros, que têm também um efeito psicoterapeutico de apoio ajudando a suportar a ausência da relação psicanalítica. O psicoterapeuta não precisa se sentir um monstro insensível abandonando o paciente à própria sorte.
Quando a mãe deixa o filho pela primeira vez na escola, esse ato pungente é imprescindível para o amadurecimento. Por mais doloroso que seja frustrar o paciente, isso é necessário para levá-lo a descobrir que o psicoterapeuta não compartilha de seu delírio de ser o único capaz de tratá-lo.
Evita assim o convite para regredirem a um momento de vida em que a alucinação da mãe-ideal - ou do peito ideal - eram os únicos objetos com os quais o bebê podia contar para sobreviver aos perseguidores.
A dor da frustração pode levar o paciente a odiar o psicoterapeuta, promover uma desidealização brusca e levar o paciente a abandonar a psicoterapia.
Mas acho preferível correr este risco. A alternativa seria o psicoterapeuta atuar contratransferencialmente acreditando ser o único, sentir-se tentado a ultrapassar os limites do desempenho profissional, expondo-se à probabilidade de prejudicar-se e prejudicar o paciente.
Descobrirá muito tarde que tudo o que ele fizer pelo paciente não poderá evitar a desidealização. Ademais, não deve ser nosso objetivo tornarmo-nos o objeto ideal do paciente. Isso não ajuda a cura, apenas promove a loucura (de ambos).
E, afinal, se o paciente puder suportar a frustração e sustentar o vínculo psicoterápico, perceberá que entre seu delírio persecutório e a realidade há uma diferença, que outras pessoas também são "boas", e que o psicólogo é apenas um ser humano que presta serviços profissionais. Isso frustrará nosso narcisismo, mas será muito benéfico para nossa saúde mental. Inclusive a do paciente." (Ryad Simon)
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15 de abril de 2011
14 de janeiro de 2011
Terapias Alternativas e Práticas Psicológicas
Terapia alternativa é toda e qualquer forma de tratamento que se diferencia dos meios convencionais de cuidado e cura empregados pela medicina e pela psicologia. Os modelos de terapia alternativa conhecidos atualmente são inúmeros, entre elas: astrologia; numerologia; cristaloterapia; terapia regressiva de vidas passadas; cromoterapia e florais, entre outras.
Tais práticas têm se proliferado consideravelmente há alguns anos no Brasil e seguem conquistando cada vez mais adeptos, apesar de haver dúvidas em torno da confiabilidade dos resultados, bem como em relação às competências dos profissionais que as aplicam (TAVARES, 2003).
Segundo Gauer (1997) a imensa procura destas práticas está atrelada ao fenômeno pós-moderno, favorecido pelo movimento hippie dos anos 70 que fez emergir, no âmbito social, as religiões orientais e a busca de integração indivíduo-cosmos. As terapias alternativas começaram efetivamente a ganhar espaço nos anos 80 – marcados pelo grande interesse das “camadas médias urbanas das práticas oraculares” (TAVARES, 2003, p.87) e desde os anos 90 quando deu-se início às disputas sobre a legitimidade de tais práticas.
Desde então, assiste-se inúmeras polêmicas e diferentes opiniões entre os profissionais da área da saúde, especialmente entre médicos e psicólogos, o que acaba por implicar em diferentes posicionamentos dos órgãos regulamentadores destas profissões (TAVARES, 2003). No caso da Psicologia, as modalidades de terapia acima mencionadas foram vetadas pelo Conselho Federal de Psicologia nos anos 90, posição que continua em vigor até hoje.
Vale atentar ao fato de que as mesmas motivações: problemas conjugias; relacões inter-pessoais; depressão; fobias; etc, provocam a busca por terapias alternativas ou pelo tratamento psicológico, talvez porque o sincretismo religioso típico do nosso país favorece a busca por modalidades diversas que abarquem explicações psicológicas e espirituais. Outro aspecto importante a se pensar é o fato de não haver clareza por parte dos profissionais – psicólogos e terapeutas alternativos, sobre o que embasa sua prática, o que, em última instância, gera confusão de papéis e desinformação da população.
Parece também que a pluralidade existente na Psicologia interfere na tentativa de classificação das práticas terapêuticas existentes. O único caminho para sair deste impasse é perceber que as terapias alternativas não decorrem diretamente das abordagens psicológicas, mas têm influência de religiões orientais, concepções holísticas de corpo, psiquismo e espiritualidade (GAUER, 1997).
Em suma, a Psicologia se diferencia das práticas alternativas não só por estar pautada na cientificidade, mas principalmente porque ela tem como objeto de estudo o sujeito enquanto ser bio-psico-social, não estando, por isso, atrelada a aspectos místicos espirituais. Tendo em vista que de uma maneira ou de outra tais práticas trazem benefícios (GAUER, 1997) não nos cabe realizar um juízo de valor a respeito delas, posto que simplesmente não as realizamos.
“O alternativo não se define, então, pela atividade prescrita em si, nem pelo fato de se constituir como uma experiência nova no campo da intervenção psicológica, mas pelo tipo de conhecimento veiculado e pelas concepções de homem e de mundo a eles subjacentes” (GAUER, 1997, p.2).
Referências Bibliográficas:
BOCK, A.M.B.. Resolução CFP Nº 10/97 . Conselho Federal de Psicologia, Brasília,out/1997. Disponível em:
FURTADO, O.. Resolução CFP Nº 005/2002 . Conselho Federal de Psicologia Dispõe sobre a prática da acupuntura pelo psicólogo, Brasília, mai/2002. Disponível em:
GAUER, G.; SOUZA, M. L.; MOLIN, F. D; GOMES, W.B.. Terapias alternativas: uma questão contemporânea em psicologia do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Rio Grande do Sul. In: CONGRESSO CIÊNCIA E PROFISSÃO DE BRASÍLIA, VL. 17, n.2., 1997, Brasília.
TAVARES, F. R. G.. Legitimidade Terapêutica no Brasil Contemporânea: As Terapias Alternativas no Âmbito do Saber Psicológico. [Editorial]. PSYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 13 (2):83 – 104, 2003.
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